quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A "Capitu" da "Plim-Plim"!

Sinceramente não poderei explicar qual público-alvo a rede “Plim-Plim” pretende atingir com esta produção “Capitu”.
Por certo não será o brasileiro. Talvez tenha em mente a exportação para a Europa, onde estas imagens estão enraizadas na memória e atavismo europeus, berço do romantismo e do simbolismo pictórico, da “máscara de pantomima “ de um teatro de Brecht, misturada com as alegorias inconscientes de um mestre como Fellini.
Reparem que, como fundo musical e temas, usaram músicas estrangeiras, até rock pesado, pois as emoções ali representadas não existem em nossa constituição genética e emocional como povo. Apesar da ótima e esmerada direção de fotografia, que usou e abusou dos “efeitos-tela” , nebulosidades "en passant" e cortinas múltiplas, num eterno "clima de cenário de teatro", em contínua mutação, não encontramos qualquer referência mais típica da época e dos nossos costumes, a não ser a presença de dois personagens negro; uma empregada e um vendedor ambulante que passava na rua.
De resto, imagens também estrangeiras em branco e prêto, da virada do século 19 para o século passado, que não condizem em absoluto com a nossa realidade "tupiniquim" tropical.
De que vale a abertura operística de um “O Guarani”, em pequeno e rápido trecho musical, se o resto se passa embalado por um romantismo e lirismo, mais característicos de uma obra idílica mística irlandesa , provençal francesa ou apaixonada italiana?
Até o cabelo e fisionomia do protagonista adolescente é totalmente destoante da verdade ao tempo da obra de Machado de Assis. Capitu tinha um olhar de inocência, porém “oblíquo”, instigante, atraente, característico de olhos assimétricos, (o contrário da vesguice) não bem como os da atriz-cantora escolhida, a meu ver meio “passada de idade”, em comparação ao seu par , mais assemelhado ao jovem que despertou paixão fatal no homossexual meio pedófilo, do filme “Morte em Veneza”.
Chegamos à conclusão que, para realizarmos obras de impacto lírico e romântico, temos de nos distanciar (pelo menos nas imagens televisivas ou cinematográficas) do que temos culturalmente como povo, incapaz de expressar tais sutilezas, simbolismos e nuances mais sofisticadas.
É só trocarem aquela “musiquinha cantada em inglês” quando a menina baila pela varanda escrevendo com giz no chão, por um “pagode”, um “axé”, ou canção “brega-romântica”, para constatarem a nossa deficiência histórica cultural .
O diretor não seria tão doido a ponto de tentar uma coisas destas, claro.
Machado de Assis, embora um escritor, intelectual e político brasileiro, tinha uma cultura “ancorada na Europa”, como todos da época, daí a sua visão critica e ética acima da realidade reinante neste país onde a boçalidade e mediocridade predominavam.
Casou-se com uma mulher de ascendência européia, viveu uma vida “européia”, em pleno Brasil, tentando manter uma fidalguia e porte digno nesta calamidade “macunaímica” brasileira.
Tinha sangue negro...de origem modesta, sofreu preconceito, porém, amparado por uma família de posses em sua infância, aproveitou todas as chances de progredir , estudando e se capacitando para ser uma das maiores expressões de nossa história.
Se hoje vivesse em nosso mundo atual, não estaria “rodopiando no chão”, nem batucando, não pleitearia cotas, muito menos usaria cabelos “rastafari”, embora talvez estivesse vivendo em absoluto anonimato, em algum empreguinho modesto, sem nenhuma editora interessada em publicar seus livros, mantendo a mesma visão crítica honesta e implacável de nossa realidade tão pobre em valores e princípios.
Ao contrário da maioria de nós brasileiros, um mestiço que deu certo...

8 comentários:

Anônimo disse...

Tudo bem Homero,
Acabei de ler teu comentário sobre a Capitu, bem interessante teu ponto de vista, todavia eu não assisti, mas sem querer chamastes minha atenção para essa mini-série, vou tentar vê-la com o olhar bem mais crítico. Na verdade não sei se concordarei ou não contigo, mas de qualquer maneira respeito tua opinião.
Boa-noitem amigo. Em outro momento, farei uma crítica, mas abalizada do seriado e, assim, poderei dizer-te se concordo com o ponto de vista que oras colocas..

Sol disse...

Bom dia Homero!

Vou dar o meu pitaco sobre "Capitu".Na minha época de colégio ,as aulas de portugues eram dadas em cima de livros grossíssimos com textos ,redações, interpretação de textos e tinhamos por obrigação lermos um livro(literatura brasileira)por semana, e depois fazermos uma verdadeira dissecação sobre a estória.

Na minha adolescencia ler Machado de Assis era um "saco",difícil interpretar, suas angústias e o olhar crítico e cínico.Só fui aprender a gostar e admirar Machado de Assis ,depois dos trinta e tantos anos.

Penso que essa adaptação tem o objetivo de alcançar a juventude dos nossos dias, que provavelmente só lê literatura em épocas de vestibular e assim mesmo com muita dificuldade.

A imagem, fotografia, cenário, vestimenta e caracterização dos personagem, podem parecer estranhos a nós que, aprendemos de outra maneira mas, para essa geração é preciso usar de outros argumentos,o apelo visual é o que prende a atenção.

Não é novidade essa técnica que usaram em Capitu,a última adaptação que vi de Romeu e Julieta também foi assim.

Como sou a "moda antiga", não gosto de "invencionisses" como diria Odorico Paraguaçu, porisso não sinto a mínima vontade de acompanhar esta minissérie.Prefiro ficar com a minha impressão e minhas lembranças.

Solange

Sol disse...

Ainda penso que o maior problema no Brasil, não é o racial e sim o social.

Existem brancos e negros pobres e sem cultura.Basta andarmos pelas periferías e encontraremos loiros de olhos claros assim como negros vivendo de bolsas familia e renda mínima, frequentando escolas caindo aos pedaços,com professores desmotivados e, um ensino abaixo da crítica.

A diferença é que vivemos sobre o olhar da "estampa",a aparencia ainda é o fator dominante em qualquer avaliação.

"Um engravatado ladrão" será chamado de doutor.
Um pobre,"mal arrumado",cometendo erros de linguagem ou usando gírias será tratado de "vagabundo ou maloqueiro" mesmo que seja honesto até o último fio de cabelo, seja ele branco ou negro.

A caracterização de cada raça não é um elemento de divisão.
Para qualquer um que olharmos, iremos mostrar a nossa admiração ou desagrado ,assim como temos negros com rastafaris e roupas coloridas batucando aqui e acolá, temos os brancos com inúmeras tatuagens, cabelos moicanos ou com dreadlocks e brincos de tamanhos variados, tocando rock ou simplesmente fazendo barulho.

O que devemos aprender e isto é o mais difícil, é a lidar e aceitar as diferenças,com chances educacionais iguais, só assim teremos um país melhor e um pouquinho mais justo.

Solange

Elisete disse...

Mano Urso...

Ainda não assisti "Capitu"... só tenho ligado a TV para ver os noticiários, mas vou dar uma olhada atentando para as tuas considerações e depois comento.

Nem pude passar aqui ontem, 'caiu' a Rede e como estava demorando p'ra voltar resolvi descansar.

Que você esteja bem.

Um bom dia, Mano!

Fica com Deus!

"Pandão"!

Homero Moutinho Filho disse...

Amigos(as).

-Não levantei a questão racial, mas sim a cultural de uma mistura de etnias.
-Também não considero o fator "social" o determinante da sensibilidade de um povo em relação ao lirismo e romantismo.
-A responsável pelo respeito e admiração da figura feminina foi a Igreja Católica durante a idade média, com a divinização das "Madonas" e culto "mariano" .
-Esta foi a base que, junto com o puritanismo deu origem ao romantismo, que nada mais é do que a "sublimação da sensualidade".
Somente os europeus desenvolveram esta sensibilidade e viram na figura feminina a inspiração maior de suas obras.
-Asiáticos, africanos e demais etnias sempre consideraram e ainda consideram a mulher algo inferior.
Dai que, entre estes povos a idealização, a sublimação dos instintos e o romantismo nunca prosperaram nem encontraram terreno fértil.
-Se hoje alguns europeus e seus descendentes também "batucam", se tatuam ou formam "tribos urbanas", antes de tudo criaram as orquestras sinfônicas, os instrumentos, as grandes obras artísticas e intelectuais, o progresso tecnológico e ainda conservam alguma ordem, higiene, organização social, educação, cidadania e disciplina em seus países e comunidades no exterior.
-Somos fruto de etnias paleolíticas e do pior nível cultural humano europeu.
-Portanto...temos de, pelo menos, por humildade, reconhecer esta deficiência cultural nossa, ao invés de enaltecermos por ufanismo infundado o que não merece ser enaltecido.

Anônimo disse...

Boa Noite.
Quando você fala dos olhos de Capitu, você quis dizer simétricos?

Homero Moutinho Filho disse...

-Não. São assimétricos mesmo. Diferentes pela posição de cada um em relação ao eixo nasal, porém não vesgos, ao contrário, orientados ligeiramente para fora do eixo.
-Grandes divas do cinema tinham e têm olhos assim. Marilyn Monroe, Brigite Bardot, etc.

Sol disse...

Bom dia Homero!

Ontem,assisti a um pedacinho de Capitu, e logo me lembrei dessa mensagem que recebi, o diretor Luis Fernando teve muita sorte com hoje é dia de Maria, talvez por muitos não conhecerem a história, a adaptação para a televisão ficou realmente maravilhosa mas, com Capitu não gostei!

É o jovem tentando mudar e colocar a sua marca em algo que não criou.

- Um calouro muito arrogante, que estava assistindo a um jogo de futebol, tomou para si a responsabilidade de explicar a um senhor já maduro, próximo dele, por que era impossível a alguém da velha geração entender esta geração.

- 'Vocês cresceram em um mundo diferente, um mundo quase primitivo',

o estudante disse alto e claro de modo que todos em volta pudessem ouvi-lo.

-'Nós, os jovens de hoje, crescemos com televisão, aviões a jato, viagens espaciais, homens caminhando na Lua, nossas espaçonaves tendo visitado Marte.'

- 'Nós temos energia nuclear, carros elétricos e a hidrogênio, computadores com grande capacidade de processamento e,' ... fez uma pausa para tomar outro gole de cerveja.

O senhor se aproveitou do intervalo do gole para interromper a liturgia do estudante em sua ladainha e disse :

-'Você está certo, filho. Nós não tivemos essas coisas quando nós éramos jovens... por isso nós as inventamos.

-E você, bostinha arrogante, o que você está fazendo para a próxima geração?'


Solange